Retrospectiva 2014

A jornada inútil de
um ano bom

O ano de 2014 começou como um recipiente vazio, acabava de me formar em Design Gráfico e retornar do meu mochilão pela Europa. Não havia mais nenhum compromisso fixo com minha educação acadêmica, com minha cidade e com meu trabalho. E como um bom leitor de Sartre e toda sua nóia existencial, eu senti o assustador fantasma da liberdade. Lembro que reservei uma dia da minha vida para aplicar metodologias de design para decidir meu futuro (é serio) escrevi todos os caminhos que conseguia enxergar em um quadro: coloquei vantagens, desvantagens, variáveis e observações. Olhei por horas aquele quadro como um jogo de xadrez, no alto da prepotência da razão tentando prever qual seria a melhor opção. (damn it como é difícil).

Ao começar compartilhar estes pensamentos, descobri que não era uma dúvida só minha - Deliberar sobre o futuro e encontrar um caminho para se dedicar - era o fantasma de muitos dos meus amigos, naquele momento. E já entrego o ouro que este foi o grande marco de 2014: assistir e viver um ano de amigos se separando na busca da própria verdade - na tentativa de viver uma vida FODA (pessoal e profissional)! E o mais difícil, descobrir o que é essa vida FODA que vale a pena ser vivida.

“Having the courage to live your own individual Truth.” - Jack Kerouak

Toda vez que me despedi de um amigo comparei a uma história japonesa sobre dois lutadores que cresceram e treinaram juntos a vida toda, chegando a estágio muito próximo da estagnação. Percebendo o limite imposto pela presença um do outro decidiram se separar, cada um para uma direção diferente, na promessa de se encontrarem no extremo oposto da terra após um ano, para lutar novamente e complementar um ao outro novamente. E foi exatamente isso que vivi, amigos que se espalharam por todos os cantos e continuam espalhados para aperfeiçoarem e descobrirem o que é viver uma vida FODA.

Vou tentar contar esse ano a partir dos projetos, highlights e muitas trocas de email que aconteceram. Não respeitando exatamente uma ordem cronológica, e sim uma prosa espontânea (quem dera).

#01O começo

Logo no começo do ano o Bliive, startup que sou um dos co-founder junto com meu amigo Murilo, foi selecionado para participar do programa de aceleração do Reino Unido. Um ano incubado em Glasgow e subsidiado pelo governo para trabalhar apenas no Bliive. A Notícia incrível, depois de um ano eu já voltaria para a Europa e agora para morar. E claro, a oportunidade de trabalhar apenas no Bliive, coisa que nunca aconteceu até então. Iniciou uma correria atras da papelada necessária para validar o visto e durante esse tempo de vai e vem de papéis, tive a oportunidade de trabalhar 4 meses no processo embrionário do primeiro sistema de Carsharing do Brasil, o Fleety. Percebi o quanto estava inserido neste universo de Startups, pela experiência com dois anos de Bliive e estar apto para validar o projeto de carsharing e economia colaborativa em um país que tem dificuldade em confiar no próximo. Um projeto que deu gosto de participar, principalmente por conhecer profissionais muito fodas em suas respectivas áreas.

Fleety - Sistema de carsharing

Quando finalmente a papelada ficou pronta, a notícia incrível veio a baixo (escute Maísa aqui). Meu visto tinha sido negado. Para participar do programa era preciso ser Bacharel e meu título de ensino superior é Tecnólogo. O baque foi grande, principalmente pelas expectativas geradas e por ver a equipe sendo dividida.

Antes de saber que o Bliive tinha sido selecionado para o programa de aceleração, lá em janeiro, eu tinha planos de ir para São Paulo ou Rio de Janeiro trabalhar em duas empresas que sempre admirei e estava conversando. Com a notícia da viagem do Bliive havia cancelado os contatos. Com essa reviravolta, parei novamente e deliberei se devia retomá-los. Minha busca por esse caminho FODA sempre esteve ligada ao fato de aprender mais e conseguir preencher o grande gap de onde estou atualmente e o que desejo ser.

Imagem do livro Steal Like Artist

Mesmo adorando o Fleety, sabíamos que era temporário e minha hora tinha acabado ali, minha busca necessitava de um vôo mais arriscado. Lembrando do texto do Abujanra “a gente se acostuma”, eu precisava sair deste conforto. Quando recebi o email da D3 dizendo, te esperamos mês que vem, a ficha caiu. Estava me mudando para São Paulo, e a jornada apenas tinha começado.

#02O meio

São Paulo me proporcionou novos encontros, novas conversas e novas pessoas, uma mais incrível que a outra. É impressionante sentir que cada cidade possui um espírito diferente, como se a junção de pessoas que ali viveram e vivem constroem uma áurea que envolve e define o comportamento como um organismo vivo, em um ciclo de influências. A frase que mais usei para explicar São Paulo até agora foi:

“São Paulo é feia sim, mas toda feiura tem sua beleza”.

Nesta etapa preciso agradecer o pessoal do Semanaldo, e em especial a minha amiga Nathalia Camargo por toda a recepção e a ajuda em migrar de ambiente. Na D3 a dinâmica de trabalho me surpreendeu, diferente do que já havia convivido, vários projetos loucos e surpreendentes, misturando hardware, design e programação sem barreiras e setores. A qualidade do pessoal transformou cada break do lanche, em conversas acaloradas e de muito aprendizado.

Foto da minha estação de trabalho e a mágica acontecendo

Muita coisa boa acontecendo, mas sair da zona de conforto, e do costume, tem várias dificuldades (muitas na verdade). Algumas clássicas de quem recém saiu do conforto maternal da refeição pronta todos os dias, aqui cabe o agradecimento a carne moída (versátil e rápida), as preocupações em conseguir morar em um lugar com qualidade de vida, a organização financeira, sendo São paulo uma cidade caríssima - neste quesito rolou planilha de gastos open source - e a solidão de não possuir mais aqueles amigos de ligar a qualquer hora e tomar uma cerveja no posto enquanto esbraveja suas frustrações do mundo.

Mas o que realmente ressoava na cabeça era o questionamento em descobrir o que é viver/ser FODA, tentar buscar o valor em sair da zona de conforto. Três Semanas depois de mudar para SP, o Murilo embarcou para Glasgow com o Bliive e começamos um email com o assunto “Contagem”.

De vez em quando lembramos da contagem e trocamos pensamentos

O email continua reduzindo os dias, já passamos da metade e a contagem em tornar-se fodas, virou a busca em descobrir o que é ser FODA e o que é viver essa vida FODA. (sinto decepcioná-lo mas ainda não temos resposta)

#03A viagem

Voltemos a história. Trabalhando remotamente no Bliive e encarregado de representar a empresa nos eventos aqui do Brasil, no começo de junho, participamos do Desafio Intel, a premiação nada menos que uma viagem de imersão de três semanas no Vale do Silício com uma startup de cada país em preparação para a final mundial da competição. (momento de suspense). O Bliive saiu vencedor e lá fui eu fazer a viagem conceitual mais sonhada da minha vida: Conhecer a cidade mais tech do mundo e por ironia do destino geográfico berço do Movimento literário e ideológico Beat, que já narrei essa paixão na Retrospectiva 2012.

Um pouco da papelada

Poderia gastar parágrafos com adjetivos para contar como foi tudo. Mas resumidamente foram três semanas incríveis que me ajudaram muito na minha percepção sobre funcionamento de startups e da deliberação sobre “o que é ser FODA?”. Conheci pessoas na mesma situação, tocando o próprio negócio nas mesmas dificuldades de um país latino-americano e incrivelmente boas. Pessoas realmente de coração grande. E é muito bom saber que você tem amizades em muitos cantos do mundo.

Vale uma nota, passei um dos momentos de mais nervosismo e insegurança do ano. Como forma de classificação para a etapa global precisava apresentar o pitch em inglês, apresentar nunca foi uma dificuldade, mas colocar em lingua estrangeira e competindo com o melhor de cada país da latino-america me deixou muito inseguro. E ao ouvir o resultado, alivio de missão cumprida porque o Bliive estava na final global.

#04O retorno

Voltando para SP, hora continuar os trabalhos incríveis da D3 e os pequenos sideprojects. Para matar a saudade do Murilo ressuscitamos um projeto antigo que rodava no twitter onde mandávamos links um para o outro e transformamos em podcast de 20 minutos, toda terça. Rendeu boas risadas e mais de 10 episódios (vitória)

Tumblr do Curadoria do Dia

A D3 estava voando com o Bloom, um sistema integrado na balada ou eventos para você fazer pagamentos, interagir com marcas e comprar ingresso. E a instalação artística A place to departure, uma interface física em forma de janela instalada em São Paulo e na China e quando dois toques se encontram nestes diferentes lugares você sente uma vibração.

Reimagine eventos ao vivo com o Bloom
Experimento para spotify converter playlists de outros serviços
Hotsite do projeto A place to Departure

E neste espírito de continuar trabalhando e tentando criar cada vez produtos melhores São Paulo permitiu hospedar pessoas fantásticas que vieram me visitar e alegraram meus finais de semanas com ideias e discussões.

#05Ponto final

E como liberdade poética, ponho um ponto final no ano de 2014 (mesmo ele não tendo acabado), longe de responder a questão do que é viver/ser foda, com muita saudade dos amigos espalhados, consciente que tenho uma longa estrada antes de chegar na minha masterpiece. Mas contente não pelos resultados, mas por entender que a jornada deve ser ínutil - como fala o Clóvis de Barros. Já que para ser útil é preciso servir a algo externo. E ser inútil significa bastar por si só. A jornada de 2014 foi inútil, o valor dela está nela mesmo.